Se você lidera uma empresa no Brasil, a primeira quinzena de fevereiro de 2026 trouxe uma mudança que não pode ser ignorada. O governo federal elevou o imposto de importação para empresas em mais de 1.200 produtos — incluindo máquinas industriais, smartphones, equipamentos hospitalares, robôs, servidores e componentes de telecomunicações. As alíquotas subiram até 7,2 pontos percentuais, com parte das mudanças já em vigor e outra entrando a partir de março.
Não se trata apenas de um ajuste tributário pontual. Estamos falando de uma virada na política industrial brasileira que afeta diretamente o planejamento de investimentos, a cadeia de suprimentos, as margens de operação e, no limite, a competitividade do seu negócio. A pergunta que todo empresário precisa se fazer agora é: “estou preparado para liderar minha empresa nesse novo cenário?”
O que de fato mudou no imposto de importação para empresas
A Resolução Gecex nº 852/2026, publicada em 5 de fevereiro, formalizou o aumento das alíquotas do imposto de importação sobre 1.252 códigos de produtos. A lógica do reajuste funciona assim: produtos que tinham alíquota inferior a 7,2% passaram para 7,2%; os que estavam entre 7,2% e 12,6% subiram para 12,6%; e aqueles entre 12,6% e 20% foram para 20%.
O argumento do Ministério da Fazenda é que as importações de bens de capital e de informática cresceram mais de 33% desde 2022, com a participação de produtos estrangeiros ultrapassando 45% do consumo nacional em alguns segmentos. Na leitura do governo, esse nível de penetração representa risco estrutural para a indústria brasileira e justifica uma resposta tarifária “moderada e focalizada”.
Há nuances importantes. Produtos sem fabricação nacional equivalente continuam elegíveis para tarifa zero pelo regime de ex-tarifário. Além disso, o governo abriu prazo até 31 de março para que empresas solicitem redução temporária da alíquota, com validade de até 120 dias. Ou seja, a medida não é um muro — é um labirinto com passagens, desde que você saiba onde estão.
Quem sente o impacto primeiro — e como ele se espalha
O efeito mais imediato atinge empresas que dependem de equipamentos importados para operar, modernizar ou expandir. Setores como mineração, energia, saúde, infraestrutura e tecnologia estão na linha de frente. Mas o impacto não para aí.
Existe um fenômeno que economistas chamam de efeito cascata — e no Brasil ele é especialmente perverso. O imposto de importação compõe a base de cálculo de outros tributos, como IPI e ICMS. Um aumento de quatro pontos percentuais na alíquota, como no caso dos smartphones (que passou de 16% para 20%), pode gerar um impacto ampliado no preço final que vai muito além do ajuste nominal.
Na prática, o repasse tende a aparecer de formas que nem sempre são óbvias: no custo de manutenção de equipamentos hospitalares, no preço de exames médicos, no orçamento de obras de infraestrutura, no valor de eletrodomésticos e até em itens simples como motores de portão de condomínio. É um aumento que não chega com etiqueta dizendo “imposto” — o que torna o planejamento financeiro ainda mais desafiador.
Entidades do setor de tecnologia já se posicionaram publicamente com uma leitura que vai além do debate tributário: a tecnologia da informação não é um setor isolado — é a infraestrutura transversal que sustenta todos os demais setores da economia. Quando o custo de servidores, roteadores e componentes de rede sobe, o impacto não fica restrito ao departamento de TI. Ele alcança a logística, o atendimento ao cliente, a análise de dados, a automação de processos e, no fim das contas, a capacidade da empresa de competir.
Para empresas que possuem contratos de fornecimento com a administração pública, o cenário ganha uma camada adicional de complexidade. A estrutura de custos que fundamentou propostas em licitações pode já não refletir a realidade. Quem opera com Sistema de Registro de Preços precisa avaliar se cabe um pedido de reequilíbrio econômico-financeiro antes que o prejuízo se consolide.
O dilema estratégico: proteção versus modernização
Aqui está o ponto que realmente importa para quem toma decisões. Essa medida não é boa nem ruim em si — ela cria um dilema estratégico que exige posicionamento.
De um lado, a proteção tarifária pode abrir espaço para fornecedores nacionais. Empresas que fabricam no Brasil podem ganhar competitividade relativa, e cadeias de suprimentos locais podem se fortalecer. Para quem está posicionado do lado da produção nacional, há uma janela de oportunidade.
De outro lado, o parque industrial brasileiro opera, em muitos segmentos, com equipamentos com mais de 20 anos de uso. A indústria nacional de bens de capital ainda não consegue suprir toda a demanda por tecnologias de ponta. Encarecer a importação de máquinas e componentes pode, paradoxalmente, retardar exatamente a modernização que o país precisa para se tornar mais competitivo.
A questão para o líder empresarial não é escolher um lado do debate macroeconômico. É responder: “dado esse cenário, qual é a melhor jogada para a minha empresa nos próximos 12 a 24 meses?”
Cinco movimentos estratégicos para liderar com clareza em 2026
Momentos de mudança regulatória são momentos de diferenciação. Enquanto alguns empresários paralisam ou apenas reclamam, os que constroem vantagem competitiva são aqueles que agem com método. Abaixo, cinco movimentos concretos.
1. Faça um diagnóstico de exposição imediato
Antes de qualquer decisão, mapeie com precisão o quanto sua operação depende de insumos e equipamentos importados. Levante quais NCMs (códigos de produtos) da sua cadeia de suprimentos foram afetados, calcule o impacto nas margens e identifique onde há alternativas nacionais viáveis — e onde não há. Ferramentas de análise de dados e inteligência artificial podem acelerar drasticamente esse diagnóstico, cruzando bases de fornecedores, histórico de compras e simulações de custo em questão de horas, não semanas.
2. Avalie o regime de ex-tarifário — e aja rápido
O prazo para solicitar redução temporária da alíquota vai até 31 de março de 2026. Para produtos que já eram beneficiados por reduções anteriores, a concessão pode ser imediata enquanto o processo é analisado. Não deixe essa janela passar. Estruture sua documentação agora. Empresas com governança bem organizada e processos de compliance afinados terão vantagem nessa corrida contra o relógio.
3. Renegocie contratos e recalibre projeções financeiras
Se sua empresa possui contratos de fornecimento — especialmente com o setor público —, avalie o cabimento de pedidos de reequilíbrio. No setor privado, antecipe-se às renegociações com fornecedores e clientes. Revise projeções de fluxo de caixa, atualize cenários de orçamento e recalibre metas de margem. Gestão financeira baseada em dados atualizados, e não em premissas do ano passado, faz toda a diferença quando o ambiente regulatório se movimenta com essa velocidade.
4. Acelere a agenda de eficiência e automação
Quando o custo de insumos sobe, a saída não é necessariamente repassar tudo ao preço final — é buscar ganhos de produtividade internos. Automatizar processos operacionais, otimizar fluxos logísticos, adotar métodos ágeis de gestão e usar inteligência artificial para identificar desperdícios são caminhos que transformam pressão de custo em disciplina de execução. Empresas que já possuem uma cultura de melhoria contínua vão sentir menos o impacto do que aquelas que operam no modo “sempre fizemos assim”.
5. Reposicione-se na cadeia de valor
Toda mudança regulatória redesenha o mapa de competitividade. Se você é um fabricante nacional que concorre com importados, este pode ser o momento de investir em qualidade, certificação e capacidade produtiva. Se você é um importador, pode ser hora de diversificar fornecedores, buscar mercados alternativos ou até avaliar operações de montagem local. O ponto é: não espere o cenário se estabilizar para se mover. Quem se posiciona durante a turbulência captura valor quando a poeira baixa.
Um exemplo prático: como uma empresa de tecnologia pode reagir
Imagine uma empresa de médio porte que fornece soluções de infraestrutura de TI para o mercado corporativo. Boa parte dos servidores, switches e roteadores que ela revende e instala vem do exterior. Com o aumento da alíquota, o custo de aquisição subiu entre 5% e 10%, dependendo do equipamento.
O primeiro passo foi mapear quais produtos tinham maior impacto na margem e quais possuíam alternativa nacional viável. Com apoio de uma análise de dados estruturada, a equipe financeira simulou três cenários: repasse integral, repasse parcial com renegociação de margem, e substituição parcial por fornecedores locais.
O segundo passo foi protocolar pedidos de ex-tarifário para os itens mais críticos, garantindo pelo menos 120 dias de fôlego.
O terceiro — e mais importante — foi usar o momento como catalisador para revisar toda a operação. A empresa acelerou a automação do processo de compras, implementou um painel de gestão de custos em tempo real e redefiniu seu modelo de precificação com base em dados atualizados, não em tabelas estáticas.
Resultado: em vez de simplesmente absorver o impacto ou repassá-lo e perder clientes, a empresa saiu da crise com uma operação mais enxuta, mais ágil e com maior previsibilidade financeira.
O que esse movimento revela sobre o Brasil em 2026
Para além do impacto imediato, essa medida sinaliza algo mais amplo. O Brasil está recalibrando sua estratégia comercial em um mundo que caminha para mais protecionismo — não menos. Os Estados Unidos já adotaram tarifas agressivas, a Europa endurece regras para importações em setores estratégicos e até economias emergentes estão usando instrumentos tarifários com mais frequência.
O líder empresarial que ignora esse contexto macro corre o risco de ser pego de surpresa pela próxima rodada. O que separa empresas resilientes de empresas vulneráveis não é a ausência de choques — é a capacidade de antecipar, adaptar e executar com velocidade.
Isso passa por cultura organizacional (ter times que sabem operar em ambientes de incerteza), por governança (ter processos decisórios que não travam quando o cenário muda) e por método (ter ferramentas e rotinas de gestão que transformam informação em ação). Empresas que investem nessas três dimensões não são imunes a choques — mas se recuperam mais rápido, perdem menos margem e frequentemente encontram oportunidades onde outros enxergam apenas ameaça.
Vale observar ainda que o governo estima uma arrecadação adicional de R$ 14 bilhões em 2026 com essa medida — valor já incorporado às metas orçamentárias. Isso sugere que, independentemente do discurso de proteção industrial, há um componente fiscal relevante por trás da decisão. Para o empresário, essa informação importa porque indica que a reversão das alíquotas no curto prazo é improvável. Planejar para um cenário em que essas tarifas permaneçam é mais prudente do que apostar em flexibilizações rápidas.
Para encerrar: o imposto muda, a liderança define
O aumento do imposto de importação para empresas em 2026 é um fato. O que não é um fato — e sim uma escolha — é como você vai responder a ele. Líderes que reagem com método, usam dados para decidir, aceleram agendas de eficiência e tratam mudanças regulatórias como oportunidade de diferenciação vão sair mais fortes desse ciclo.
A pergunta certa é: “o que minha empresa precisa fazer agora para estar melhor posicionada independente do que vier?”
Se esse artigo provocou alguma reflexão, leve-a para a próxima reunião de diretoria. O melhor momento para agir era antes da medida. O segundo melhor momento é agora.



